O que será da Ford no Brasil?

Funcionários da montadora se preparam para encontro com executivos nos EUA, enquanto governo paulista anuncia haver três interessados na fábrica. Fechamento pode afetar 27 mil

Por Harlis Barbosa 27/02/2019 - 09:22 hs
Foto: Imagens extraídas da internet
O que será da Ford no Brasil?
Montagem hbsportnews

São Paulo — Passeata arrastou na manhã de terça-feira (26/2) cerca de 3 mil pessoas por São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Debaixo de chuva, os trabalhadores da Ford protestaram mais uma vez contra a decisão da montadora americana de fechar a unidade de produção de caminhões e do modelo Fiesta no ABC Paulista. O sindicato dos metalúrgicos da região defendeu, durante o ato, o boicote à compra de modelos fabricados pela companhia até que demissões sejam revertidas.

Na quinta-feira da semana que vem, representantes da entidade vão se reunir com executivos da matriz, em Dearborn, Michigan, nos Estados Unidos, para tentar negociar alternativa aos cortes de pessoal, que deverão atingir 2,8 mil empregos diretos e 1,5 mil vagas terceirizadas. No entanto, segundo estimativas de quem acompanha o caso de perto, o efeito indireto da decisão da Ford deverá chegar a cerca de 27 mil pessoas, incluindo toda a cadeia automotiva, e, portanto, os fabricantes de peças.

Enquanto os funcionários da Ford — parados desde o dia 19, data do anúncio de fechamento da fábrica — estampavam cartazes contra a companhia, o governador paulista, João Doria Júnior (PSDB), afirmou aos jornalistas que havia recebido o contato de três empresas interessadas no ativo de São Bernardo do Campo. O tucano incumbiu Henrique Meirelles, secretário da Fazenda, de encontrar um comprador para a fábrica e, assim, manter os postos de trabalho. Não foram revelados os nomes dos possíveis negociadores. Seriam duas multinacionais e uma companhia local, “o que demonstra que estamos em bom caminho de encontrar um comprador”, segundo Doria.

 “Posso antecipar que já recebemos três consultas de fabricantes de caminhões e automóveis, e oportunamente, após a evolução desses entendimentos, tornaremos públicas essas intenções”, disse o governador. Na semana passada, ele afirmou, depois de uma reunião com CEO da Ford América do Sul, Lyle Watters, que tentaria encontrar um comprador para a fábrica de São Bernardo do Campo e assim garantir também a manutenção dos postos de trabalho. Segundo Doria, nessa reunião ficou estabelecido com o executivo que, até novembro, a operação da fábrica seguiria normalmente, sem cortes.
O fim de linha para a fábrica da Ford no ABC Paulista significa também o encerramento da produção dos caminhões Cargo, F-4000, F-350, além do carro Fiesta. A companhia segue com uma unidade em Taubaté, no interior de São Paulo, e outra em Camaçari (BA). A medida, de acordo com a montadora, faz parte do plano de reestruturação regional, que tem como objetivo o “retorno à lucratividade sustentável de suas operações na América do Sul”. Os modelos deixarão de ser vendidos tão logo os estoques estejam zerados. A multinacional deve se dedicar, apenas, à produção de SUVs e picapes.

“Não tem retorno ao trabalho por enquanto, vamos manter a fábrica parada. A mobilização continua e a cada dia haverá nova atividade. Vamos também manter nossa articulação com governos e todas as instâncias que possam ajudar a reverter essa decisão”, disse Wagner Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Está marcado hoje um encontro com o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB). O fim das operações da unidade da Ford, segundo ele, traria grande impacto de arrecadação: R$ 4 milhões em receita do Imposto sobre Serviços (ISS) por ano e R$ 14,5 milhões em transferência do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).

Ajuda da viúva 


Nas últimas décadas, o apoio estatal tem sido fundamental na expansão da indústria automotiva no Brasil, seja por meio de renúncia fiscal, seja pelas linhas de crédito disponibilizadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDS). Só nos últimos três anos, o banco emprestou R$ 11,13 bilhões ao setor.

Esse valor é 65% maior do que o registrado nos três anos anteriores, entre 2013 e 2015, fase em que as montadoras viveram uma de suas piores crises no país. A Ford obteve R$ 5.512.052.854 com contratos firmados em 2005, 2008, 2014 e 2017. Foi o quarto maior valor no acumulado entre 2002 e 2018, como mostra o site do BNDES. À frente da Ford, estão apenas a FCA, a Mercedes-Benz e a CNH Industrial. No intervalo entre 2016 e 2018, foram financiados, para a montadora americana, R$ 596.878.570.

Por meio de nota, o banco informou que empresas que contratam recursos e que promovem cortes em seus quadros de pessoal são obrigadas por contrato a oferecer contrapartidas. “Caso um projeto apoiado pelo Banco implique a redução do quadro permanente de pessoal da montadora, a tomadora de recursos do BNDES obriga-se contratualmente a oferecer programa de treinamento voltado para oportunidades de trabalho na região e/ou programa de recolocação dos trabalhadores em outras empresas”. No caso de São Bernardo, trata-se de uma unidade fabril antiga, que passou a ser controlada pela Ford em 1967, quando a montadora adquiriu a Willys-Overland do Brasil.


Ainda segundo informou o BNDES, seus financiamentos a montadoras “têm por objetivos apoiar expansão/modernização da capacidade produtiva de suas plantas, bem como a pesquisa e o desenvolvimento/produção de novos modelos de veículos.”


Custo Brasil 


Para André Rebelo, assessor de assuntos estratégicos da presidência da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a situação de montadoras como Ford e General Motors, que, em janeiro, divulgou comunicado aos funcionários em que ameaçava deixar o país, não tem a ver com as novas tendências tecnológicas para o setor de mobilidade, como carros elétricos e os autônomos. Segundo ele, o problema está na queda de consumo no país, entre outras causas.

“O que vemos hoje é consequência da evolução estrutural do país e da dificuldade de se produzir aqui. Além de aspectos como tributação alta e o Custo Brasil, vimos um setor que, depois de chegar a um pico de produção, em 2013, com 3,850 milhões de unidades fabricadas, caiu para 2,880 milhões de unidades em 2018. Os entraves provocados pela adoção de padrões mais modernos terão impacto sim, só que mais adiante, não são a causa da decisão da Ford. O problema é que não tem demanda. A empresa não descontinuaria sua produção se a operação se pagasse”, analisa Rebelo.

A Ford não é a única montadora a tentar nadar contra a maré desfavorável. Em janeiro, a General Motors (GM) enviou comunicado a seus funcionários em que ameaçava deixar o país. Graças ao tom alarmista, iniciou negociações com funcionários e fornecedores, além de ter conseguido a sinalização do governo paulista de que poderá receber a antecipação de créditos tributários.

A Secretaria da Fazenda e Planejamento confirmou, na ocasião, que avalia a viabilidade de antecipar o crédito de ICMS da empresa, mas que isso significará perda de arrecadação para o estado. A decisão precisaria estar condicionada à busca de fontes alternativas para compensar essa baixa, conforme prevê a Lei de Responsabilidade Fiscal. A Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo foi procurada, mas não respondeu até o fechamento desta edição.


Novas tecnologias 


Em entrevista publicada no mês passado, Lucas Brossi, sócio da Bain & Company, avaliou que o momento desse setor é de grande transformação — talvez, a maior desde Henry Ford. “São desenvolvimentos nas áreas de carros conectados, elétricos, autônomos e serviços de mobilidade”, disse na ocasião. No caso da própria Ford, as apostas nessas inovações têm sido cada vez maiores. Em novembro passado, a montadora anunciou que espera iniciar as vendas de carros autônomos em 2021.

Ainda que com alcance muito pequeno dos modelos híbridos e elétricos no país, principalmente devido ao alto valor de venda, Brossi acredita que o avanço seja inevitável. A previsão, segundo ele, é que em 10 anos o país tenha de 20% a 30% de veículos elétricos em sua frota. “Com esse aumento nas vendas e o aperfeiçoamento das tecnologias, a tendência é de que o preço caia. E vai pesar na decisão do motorista o fato de ser um veículo muito mais econômico”, explicou o executivo da Bain.

Na mesma reportagem, o líder do setor automotivo da KPMG, Ricardo Bacellar, ponderou nessa direção. “A tecnologia tem aparecido de forma ainda mais enfática, com veículos elétricos e autônomos. A indústria não vai poder parar, ou perderá espaço para os novos competidores”, afirmou o executivo.

Depois de um longo período de negociação, a alemã Volkswagen vai formar uma joint-venture com a Argo, braço da americana Ford, com a meta de investir US$ 1,7 bilhão em modelos de carros autônomos. A informação foi divulgada pelo Wall Street Journal. De acordo com a publicação, as duas montadoras entraram em acordo para transformar a Argo no núcleo da parceria, com a participação igualitária e a possibilidade de aportes adicionais de recursos da companhia alemã nos próximos anos.

Esse é mais um movimento de parceria entre concorrentes com o objetivo de encontrar alternativas aos atuais modelos que rodam pelas ruas, com motores a combustão. Esse tipo de união entre competidores serve para acelerar pesquisas e reduzir os custos nesse novo negócio.

A parceria começará com trabalhos em conjunto na área de produção de veículos comerciais leves. Pela atual estrutura, a Volks investirá em torno de US$ 600 milhões na Argo. Esse valor, segundo fontes do jornal, seria cerca de metade do que a Ford esperava no início das conversas.

A montadora alemã vai aplicar recursos da ordem de US$ 1,1 bilhão na forma de capital de giro para pesquisa e desenvolvimento (P&D) e poderá aumentar os ativos da Argo por meio da inclusão do grupo de tecnologia da Audi, que é especializado em estudos na área de direção autônoma. A companhia europeia também pode somar ao negócio a Moía, sua unidade de serviços de mobilidade. As duas divisões não seriam integradas à Argo em uma primeira fase do negócio. 

·         O que diz a montadora


» A Ford não divulgou data de encerramento das atividades na unidade de São Bernardo do Campo. Isso dependerá de conversas com o sindicato que representa os trabalhadores e os fornecedores.
» O processo de fechamento se dará ao longo de 2019.
» Atualmente, a fábrica produz as linhas Cargo, F-4000, F-350 e Fiesta. Em 2018, foram produzidos 26 mil Fiestas e 17 mil caminhões (linhas Cargo, F-4000, F-350). Esse volume representou, respectivamente, 12% e 19% da capacidade produtiva da fábrica de carros e de caminhões.
» Serão impactados pelo encerramento das atividades 3 mil funcionários da Ford, dos setores administrativos e da produção.
» A fábrica foi adquirida pela Ford da Willys Overland em 1967.
» A empresa informa que vai trabalhar com o sindicato e com todos os parceiros envolvidos na definição dos próximos passos com relação às implicações do fechamento a fábrica.
» As iniciativas para tentar vender o negócio de caminhões foram extensivas, duraram vários meses até o final do ano passado e incluíram vários potenciais compradores. Os detalhes e discussões envolvidos nesse processo são sigilosos e, por questões legais, não serão comentados.
» O fechamento da fábrica não afeta outras unidades da Ford no Brasil. A Ford informou estar “comprometida” com a América do Sul e não ter planos de deixar a região. A empresa informou, ainda, que quer construir no Brasil um negócio lucrativo e sustentável, fortalecendo a linha de produtos.