Veja o que esperar das Coreias após acordo histórico

Veja o que esperar das Coreias após acordo histórico

Depois de uma semana histórica para os dois países, especialistas advertem que a paz na península depende do desmantelamento dos arsenais, da desnuclearização de Pyongyang e de grandes concessões por parte do regime de Kim Jong-um

Por Harlis Barbosa 30/04/2018 - 11:28 hs

Veja o que esperar das Coreias após acordo histórico
imagem web

O gesto de Kim Jong-un de ultrapassar a linha de demarcação da fronteira com a Coreia do Sul e a iniciativa do ditador norte-coreano de conduzir o anfitrião Moon Jae-in ao solo do país comunista, na manhã de sexta-feira (hora local), surpreenderam o mundo. No entanto, analistas advertiram ao Correio que há um caminho tortuoso até a paz reinar na Península Coreana. “Se a paz na região fosse uma maratona, a Declaração Panmunjon pela Paz, Prosperidade e Unificação da Península Coreana nos traria para a linha de largada. As condições se deterioraram tanto, devido ao mau gerenciamento e à hostilidade, que foi preciso uma cúpula histórica para nos levar de volta aos trilhos. O trabalho duro está só começando”, afirmou Harry H. Sa, analista do Programa Estados Unidos do Instituto de Defesa e de Estudos Estratégicos, em Cingapura. Ele alerta que Seul e Washington precisarão encontrar um modo de nutrir e de proteger o processo. “É um desafio ante um presidente imprevisível e instável ocupando a Casa Branca.”

No dia seguinte à cúpula na Zona Desmilitarizada (DMZ), Moon e o colega norte-americano Donald Trump conversaram durante 1 hora e 15 minutos por telefone, às 21h15 de ontem (9h15 em Brasília). De acordo com a agência sul-coreana Yonhap, eles abordaram os resultados do diálogo com Kim. “Acabo de ter ótima conversa com o presidente Moon, da Coreia do Sul. As coisas estão indo muito bem, a data e o local da reunião com a Coreia do Norte estão sendo marcados”, escreveu o republicano no Twitter. A expectativa é de que Trump e Kim se encontrem no início de junho.

                                                                    “Nova era”

Em Pyongyang, a agência estatal da Coreia do Norte celebrou o “encontro histórico” que abre as portas para “uma nova era”. “Essa cúpula foi realizada graças ao amor iluminado do líder supremo (Kim Jong-un) pelo povo e sua vontade de autodeterminação”, afirmou a KCNA, segundo a qual os dirigentes buscam “assegurar a paz na Península Coreana e a desnuclearização”. O jornal Rodong Sinmun, do Partido dos Trabalhadores da Coreia, dedicou quatro páginas ao evento e estampou 60 fotos, 15 na capa.

“O fim do jogo está na desnuclearização e na reunificação pacífica da Península Coreana. Mas haverá um longo caminho após a reunião entre Trump e Kim”, admitiu Sa, que prevê debates “potencialmente difíceis”. Especialista em Coreia do Norte pelo instituto Atlantic Council (em Washington), Robert Manning concorda que a cúpula de Panmunjon é “o início de um processo demorado”. Ele lembra que as Coreias mantiveram dois encontros anteriores, em 2000 e em 2007, emitiram declarações similares e Pyongyang se afastou dos compromissos. “O maior obstáculo é a dinastia Kim e o seu regime totalitário único. Se o norte-coreano der os passos — como fizeram China e Vietnã — de abertura e de reforma da economia, isso tornará a reunificação mais possível”, disse à reportagem.

                                                       Desarmamento

Para Manning, o documento firmado na DMZ sugere que Moon pretende institucionalizar o diálogo Norte-Sul. “Não se anuncia a paz enquanto milhares de tubos de artilharia estão no mesmo local”, opinou. “Se o confronto acabou, como disse Kim, ambos têm de eliminar os arsenais e desmantelar as posições de artilharia ao longo da fronteira, os mísseis e as estruturas de força. Isso inclui a redução do contingente americano na Península Coreana.”O analista lembrou que, ao fim da Guerra Fria, em 1991, EUA e Rússia diminuíram em 90% os seus arsenais nucleares e destruíram mísseis de alcance intermediário. “Qualquer tratado de paz terá de ser endossado por Washington e por Pequim.”

Especialista em Programa Ásia da Carnegie Endowment pela Paz Internacional, James L. Schoff explicou que o intercâmbio entre militares, a questão da Linha de Limite Norte — a demarcação marítima no Mar do Oeste — e as conversas tripartite ou quadripartite sobre a paz são bastante ambiciosas. “Para resolver a guerra, isso significa que todos os direitos de propriedade e temas de compensação serão esquecidos ou terão de ser resolvidos? Eles estão em um longo caminho até um acordo real, mesmo que possam declarar que a guerra acabou. Não há prazo nem metas.”

                                   

Schoff vê a reunião entre Trump e Kim com entusiasmo. “Os EUA poderão descobrir mais sobre as ideias de Kim em relação à desnuclearização. Essa é uma questão gritante, que impedirá a cooperação econômica com o Norte se Kim não estiver preparado para concessões”, afirmou. O analista considerou “um tanto surpreendente” a amplitude da agenda da cúpula e questionou as intenções reais de Pyongyang. “Kim busca dinheiro e tenta reduzir as sanções ou está realmente interessado em melhorar as relações intercoreanas? O tempo dirá.”Eu acho

“A paz sempre tem se mostrado frágil na Península Coreana e já a vimos se despedaçar antes. Seria devastador ver o progresso obtido ser perdido por um tuíte (de Donald Trump). Eu espero que o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, tente demover o republicano de ações desestabilizadoras. Neste momento, o gabinete de Trump está repleto de gente que provavelmente não concorda com a abordagem de Moon.”

                                                 Harry H. Sa, 
analista do Programa EUA do Instituto de Defesa e de Estudos Estratégicos, em Cingapura

“A cúpula foi tão encenada que a substância real terá de sair dos diálogos. Eu incentivaria o cultivo das relações intercoreanas, nas áreas da educação, das artes, da ciência e das conexões em infraestrutura. A parte econômica terá de esperar, até que saibamos mais sobre o caminho para a desnuclearização.”