Mulher de Robson acusa polícia de fraudar flagrante e nega escravidão de deficiente

Vanessa Santos diz que deficiente tinha salário de R$ 3 mil e em ação pede que delegado seja substituído

Por Harlis Barbosa 10/07/2017 - 16:23 hs

 

A esposa de Robson Medeiros, advogado e proprietário da Fazenda São Lucas, em Colniza, (1.065 km a Noroeste) onde pessoas supostamente viviam em condição análoga a de escravo, acusa a Polícia Judiciária Civil de forjar um “suposto flagrante” contra seu marido. Na sexta (7), a PJC resgatou dentre as vítimas o deficiente físico e visual J.P.R. que vivia em um quarto com muitos ratos e próximo ao chiqueiro.
“Vamos entrar com processo contra a imprensa da polícia, porque o depoimento da menina, o depoimento do velho que é o escravo aí, desse seu J.P.R., são totalmente contraditórios do que eles publicaram, entendeu? São totalmente ao contrário. Então, na verdade, tem uma equipe da polícia que não gosta do doutor (Robson) e tentava forjar um suposto flagrante”, declara Vanessa dos Santos em entrevista ao RD News .
Por telefone, Vanessa afirma possuir comprovante de que o deficiente esteve em Juína fazendo a perícia médica para obter benefício do INSS. “Como que uma pessoa pode ser mantida em cárcere escravo, sendo que ela foi até Juína sozinha e voltou sozinha? E eu estou com o documento aqui, em mãos, com a data, o dia e hora”, dispara. “Para manter uma pessoa em cárcere ele não sai, né!? Ele não tem contato com outra pessoa, não viaja”, acrescenta.
Questionada sobre o motivo da suposta armação, Vanessa credita a situação a “problemas pessoais”, mas não dá detalhes. “Ah, são outros problemas de polícia, são problemas pessoais. Irregularidades deles que o doutor representa na Corregedoria, que o doutor representa para promotor, para juiz e etc.”
Na sequência, a esposa do advogado diz que enviará uma equipe de reportagem à fazenda para entrevistar os que lá residem, de modo a comprovar que não há pessoas vivendo em condições desumanas.
Ainda em conversa com o RD News, Vanessa conta que o deficiente J.P.R. teria dito em depoimento uma versão diferente da apresentada peja PJC. “No depoimento dele ele diz que era conhecido da família, que morava de favor, que o doutor pagava todas as pomadas e remédios, que ele ia até Juína e voltava”, assegura.
Ao ser indagada se J.P.R. recebia salário, Vanessa responde que era comodatário da fazenda e tinha gado arrendado, sem mencionar quantos. “[...] e cuidava do dele e do doutor. No depoimento ele diz, sim, que recebia R$ 3 mil por mês”.
Quanto ao relato de uma adolescente de 13 anos, que revelou que por várias vezes foi convidada pelo patrão para ter relação sexual com ele e a sua esposa, Vanessa nega. “E a menina também disse no depoimento dela que o doutor nunca passou a mão nela, que o doutor nunca cantou ela”.
Ao contrário da versão da polícia, a esposa do advogado diz que os trabalhadores da fazenda possuem quarto com banheiro, cozinha com cerâmica, fogão a gás e energia em placa solar, cujo investimento teria sido na ordem R$ 25 mil.
Ela atribui a denúncia anônima à esposa de um dos trabalhadores que foram resgatados, que queria sair da fazenda. “O motivo dela eu não sei, mas como eles viviam, como dizem, como relatam nas entrevistas, acho que não existe”.
Advogado pede substituição de delegado
À reportagem, a Vanessa entregou cópia de uma representação, datada desta segunda (10) e endereçada ao Ministério Público Estadual. No documento, Robson e seu ex-sogro Lelui Antonio Pertile Bombarda - também acusado no caso - imputam a denúncia a uma mulher que trabalhava na fazenda, a qual acusam de cometer furtos na propriedade e de arquitetar os fatos juntamente com policiais "montando cenário de crime”, diz trecho do documento.
Robson e Lelui também afirmam que os policiais adentraram a fazenda sem ordem judicial, após passar dois dias de tocaia. Ressaltam, ainda, que o local possui condições “dignas” para abrigar os trabalhadores. Pedem, ao final, a substituição dos policiais envolvidos no caso e, “principalmente do delegado” e o encaminhamento do requerimento ao Mibistério Público Estadual e Federal, OAB-MT e à Corregedoria da PM.
Outro lado
Ao RD News, o delegado que investiga o caso, Edson Pick, nega que tenha ocorrido uma armação. Reitera que a diligência foi realizada para apurar uma denúncia feita à Ouvidoria do MPE e, chegando lá, foi confirmada. Inclusive, revela que Vanessa tentou coagir uma das vítimas no momento em que os policiais estavam na fazenda. Reforça, por fim, que todo o cenário encontrado pela polícia era análogo à escravidão.
 
Saiba
Segundo a Polícia Civil, a vítima tem deficiência física e visual ocasionadas por acidentes de trabalho nas fazendas do acusado. O funcionário, que nunca teve carteira assinada e recebia apenas moradia e comida pelos trabalhos prestados, ficou cego do olho esquerdo devido um acidente de trânsito em 2015 e amputou uma perna em razão de ferimento ocasionado quando apagava um incêndio na propriedade.
J.P.R. é portador de Hanseníase e não sente dores no corpo. Há cerca de quatro meses os ratos que circulam pelo quarto teriam roído a perna da vítima enquanto dormia, e ao levantar percebeu as poças de sangue no colchão.

 


FOnte: RD News/ colnizamtnoticias.com.br