Luxemburgo, parou no tempo?

Por Harlis Barbosa 01/06/2017 - 12:27 hs

Vanderlei Luxemburgo aparentemente não compreendeu as avaliações de seu trabalho desde o último título importante que conquistou, há treze anos. Confessar-se incomodado com “o cara dizer que eu não ganho” e prometer conquistas com o Sport pode ser uma forma de acionar o estímulo interior que parece adormecido, mas não será uma resposta ao declínio de seu desempenho como treinador, representado pelo desinteresse dos principais clubes do Brasil.

Em seu auge, o que diferenciava Luxemburgo dos demais técnicos brasileiros não eram os troféus que ele produzia, mas a forma como os conquistava. Suas equipes eram modernas, minuciosamente preparadas para superar oponentes com superioridade técnica e estratégica, bem escaladas e – talvez uma qualidade pouco valorizada – inteligentemente alteradas durante as partidas, conforme a necessidade.

Em contraste com os depoimentos dos jogadores que conviveram com Luxemburgo nesses “anos dourados”, o que se comentou sobre seus trabalhos recentes revelou um técnico que deixou de se dedicar à preparação de times da mesma forma, o que explica o futebol opaco que tantos clubes apresentaram sob seu comando. E o vitimíssimo onipresente (“querem apagar o que conquistei”) é um indício de que suas energias estão realmente direcionadas para o sentido errado.

Além de se equivocar, Luxemburgo se contradiz a cada vez que menciona os avanços que afirma ter trazido para o futebol. Se correspondem à verdade, eis a prova de que ele foi um treinador de vanguarda, à frente dos demais com os quais competia. Foi, há um tempo razoável. E hoje? Será possível que, em um jogo que se transforma em ciclos cada vez mais rápidos, o que se praticava em 2004 permanece avançado? Celso Roth, por exemplo, afirma que o futebol parou em 2006…

Manter-se na linha de frente da profissão de técnico de futebol não é simples, mesmo no Brasil, em que a “elite” é representada por algo como doze clubes. A análise da carreira em alto nível dos melhores treinadores do mundo mostra períodos de cerca de dez anos como referências de desempenho e resultados. É um movimento natural, decorrente da evolução do jogo, da competição acirrada e da obrigação de dedicação permanente. A trajetória de Luxemburgo confirma essa tendência.

Johan Cruyff dividia a categoria em treinadores de futebol e treinadores de títulos. O melhor Vanderlei Luxemburgo tinha ambas as certificações, mas elas não foram renovadas. Garantir troféus, além de incompatível com a realidade do Sport, é um atalho que não o reconduzirá ao patamar profissional que pretende ocupar. Só o jogo é capaz disso.